O silêncio depois do jantar

Existe um tipo de distância que não faz barulho. Não tem briga, não tem porta batendo, não tem ninguém dormindo no sofá. Tem só duas pessoas que jantam juntas, lavam a louça, ligam a televisão e vão dormir sem terem dito nada além do necessário. Se você perguntar, os dois vão dizer que está tudo bem. E, do jeito deles, está mesmo.

O problema é que esse silêncio não aparece de uma vez. Ele se instala devagar, ocupando o espaço de conversas que foram sendo adiadas.

Como o assunto acaba

No começo de um relacionamento você fala sobre o mundo: o que achou do filme, o que aconteceu no trabalho, aquela lembrança da infância que veio do nada. Com o tempo, o mundo vira logística. As conversas passam a ser sobre a conta de luz, o horário do médico, quem vai buscar o que.

Isso não é falta de amor. É que a vida prática é barulhenta o suficiente para preencher qualquer jantar. E quando ela preenche, o resto fica de fora sem ninguém decidir que ficasse.

O erro de tratar como problema de comunicação

Quase todo conselho sobre isso vira a mesma receita: “conversem mais”. É um conselho ruim, porque parte do princípio de que falta técnica. Não falta. Os dois sabem falar. O que falta é assunto que não seja tarefa.

Um casal que só fala de obrigação não precisa de um curso de comunicação. Precisa de alguma coisa acontecendo na vida de cada um que valha ser contada para o outro. Isso é diferente, e é bem mais difícil de resolver com uma frase de efeito.

O que costuma funcionar

O que a gente observa em quem sai desse ponto não é uma conversa definitiva. É uma mudança pequena e repetida: alguém começa a fazer alguma coisa sozinho de novo. Um curso, uma caminhada, um livro, um trabalho voluntário. E volta para casa com algo que não é conta a pagar.

Parece contraintuitivo — para se aproximar, cada um vai um pouco para o seu lado. Mas é o que devolve matéria-prima à conversa. Duas pessoas que passaram o dia dentro da mesma rotina não têm o que contar uma para a outra.

Quando o silêncio é outra coisa

Vale a ressalva: nem todo silêncio é rotina. Às vezes ele é ressentimento guardado, e aí a conversa que falta é uma bem específica, sobre algo que aconteceu e não foi resolvido. A diferença dá para sentir. No silêncio da rotina existe conforto. No silêncio do ressentimento existe tensão.

Se for o segundo caso, mais assunto não resolve. O que resolve é tratar do assunto que está sendo evitado — e isso raramente acontece bem no meio de um jantar.

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